Mente em FugaCapítulo 1:Seus olhos iam se abrindo lentamente.
Ele já reconhecia aquela sensação. Já conseguia lidar muito bem com ela. Enquanto sua visão -turva e embaçada- ia voltando aos poucos, ele teria de olhar ao seu redor e tentar reconhecer o lugar onde se encontrava.
O importante era manter a calma e não entrar em desespero em hipótese alguma. Mas ele levou anos para descobrir isso. Esse problema ficava cada vez freqüente, e desde os 15 anos ele tentava contornar a situação e buscar uma maneira de se lembrar de tudo:
A primeira vez que isso aconteceu foi em uma casa muito humilde que ele costumava chamar de lar.
Acordou em sua cama, com as pálpebras dos olhos pesadas, com a cabeça latejando de dor.
Acordou com o choro de sua mãe, ainda muito tonto tentava levantar da cama e escutar o que tinha acontecido. Entre choros e soluços abafados, não conseguia juntar tantos pedaços de informação em tão pouco tempo:
- A ponte tinha uns 45 metros – falava quem ele achava que fosse sua mãe.
- Ele não tinha motivo para estar lá - trecho quase inaudível vindo de uma voz fina e esganiçada.
- Vamos encarar os fatos. Ele está... – começou a falar uma voz grave e forte
Nessa hora ele desejou jamais ter levando da cama e ter se apoiado ao lado da porta. Não estava, e ainda hoje não estaria, preparado para escutar aquela notícia de uma maneira tão adulta.
Adulta não era bem a palavra que ele costuma usar. Ainda hoje ele não conseguia achar palavra que descrevesse o momento em que se encontrava: Tonto, quase sem visão, sujo e apoiado numa porta, entreouvindo a conversa que se passava em outro cômodo. Definitivamente adulta não era a palavra certa.
- ... Ele está morto – resumiu A Voz, voz esta que nunca mais voltaria a ouvir.
- E como vamos contar para ele? – Dessa vez ele mal conseguiu reconhecer a voz de sua mãe.
Sua voz estava mudada. Nunca tinha escutado sua voz tão emocionada, tão rouca, tão abatida. Quando seus pensamentos voltaram para o cômodo de baixo, escutou o barulho dos passos vindo em sua direção. Juntou toda sua força de vontade e cambaleou até sua cama, pois aos quinze anos de idade ainda não era capaz de encarar os olhos do que julgava ser quatro ou cinco pessoas, pedindo explicações sobre o que ocorrera. E fingiu estar dormindo.
- Como vamos falar com ele? – perguntou sua mãe.
- Certamente ele terá muito a nos explicar Lourdes, e não o contrário – replicou A Voz.
- Como pode ter certeza disso? Ele estava a mais de 100 metros de distancia, deitado no início da ponte. Não podemos pedir explicações. – suplicou sua mãe.
- É o nosso dever, ele nos deve algumas explicações – respondeu A Voz, irredutível.
- Eu não seria capaz. Pode ser que nem se lembre do que aconteceu! Deve ter sido um trauma! Não exigirei explicações e não deixarei que você o faça. Por favor, vá embora.
Apesar da voz de sua mãe não ter saído como uma ordem, A Voz se retirou do quarto. E ao passar pela porta murmurou em voz alta:
- Ele estava lá Lourdes. Mais cedo ou mais tarde ele irá se lembrar.
Davi fazia um esforço imenso para se manter imóvel debaixo dos lençóis. Acabara de descobrir que estava perto da ponte onde seu amigo Patrique havia caído. Agora suas roupas sujas e rasgadas faziam sentido. Teria mesmo presenciado o acidente? O que realmente aconteceu na ponte? Porque não se lembrava de nada?
Assim como 15 anos atrás, sua cabeça parecia estar explodindo. A diferença é que agora ele sabia como amenizar a dor. Após acordar de seus “apagões”, a última coisa que fazia era tentar se lembrar do que teria acontecido antes. Sabendo que era possível lembrar o que tinha acontecido, deveria se concentrar em saber onde estava.
Estava em movimento, e percebera agora que alguém estava ao seu lado direito.
Por alguma razão desconhecida, ele estava dentro de um ônibus. Onde ele estaria? Para onde estaria indo? Quem era aquela mulher ao seu lado? A dor em sua cabeça não deixava ele lembrar de nada.
Tentativa de escrever algo nas férias, sugestões, criticas & mais nos comentários.
Ass: Tio Beats
postado em
12.25.2005
por Beats.